quarta-feira, 27 de maio de 2015


 Choro calado
Porque é assim, como uma dor profunda
mas que está à flor da pele
Como uma vidraça que se quebra, se estilhaça
Como noite líquida
que escorre sem cessar, como uma lágrima negra
que nunca seca
mas que também não lava
mas que também não leva
e por isso nunca alivia
Não é vazio, é interrupção
É pedaço arrancado
mas não do que houve
e sim do que seria
Pedaço arrancado do sonho
Uma história que só começou
e não teve fim
e por isso se arrasta
e por isso arranha, arranca, arrebenta, encampa, preenche
paradoxalmente porque retira
Mas não é vazio
É quebra, é ruptura, fratura
Incerteza, imprevisibilidade
Medo, angústia, culpa pelo que não foi
E dessa vez, pelo que nunca será
Pelo que ficou no caminho
Pelo que insiste em existir
Em não continuar, ao mesmo tempo
em que permanece
Como ferida que nunca cicatriza
Então escorre, esparrama, domina
Olhar pela janela escancarada
O rouxinol que canta
Que espanta, que lamenta
que pronuncia, balbucia
No deserto árido, silente
Um silêncio tão profundo
que machuca a alma
Um silencio tão agudo
que tranca a porta
Porque todos os ouvidos estão surdos
Todas as experiências só são válidas
para quem já viveu
Então é inútil
Não há o que partilhar, repartir, repetir
Não há o que prometer
Não há o que jurar
O que perder
O que ganhar
Somente a garganta rouca
presa, entranhada
nos mil pensamentos que
assaltam
Não acertam, não aceitam
Não prenunciam
Não silenciam
Não desaparecem
Como pode o nada aniquilar o tudo?
Ana Marusia Meneguin

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